quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Mostra!" - Escola de Belas Artes da UFMG - 2013

vídeo feito durante a montagem do trabalho

imagem para o projeto


Essa intervenção no pátio/piscinão nasceu quando desejei me relacionar com esse espaço compartilhado, habitado e em ritmo universitário de final de semestre/ano, como um espaço expositivo. Um lugar de encontros e trocas principalmente entre a comunidade da escola, onde muitas pessoas costumam estar nos intervalos das aulas e do trabalho.

A ideia foi preencher o espaço com bolas de plástico criando uma massa de cor penetrável, levando em conta a visualidade da vista superior do terceiro e segundo andar. Tem como intenção trabalhar os sentidos já existentes de socialização e mobilidade, porém propondo uma relação diferente com o espaço e com o outro, à medida que é uma proposta lúdica.

O trabalho quis explicitar a mobilidade do lugar que habitou. Nesse movimento de encher e esvaziar muitas pessoas passaram por ele, o tocaram, o usaram de apoio para os pés, brincaram com ele em grupo ou sozinhas, o mudaram de lugar, o estouraram, o levaram para outros prédios da ufmg, para casa, foi carregado pelo vento nos dias de tempestade.

Soou dessacralizado e permaneceu existindo como coisa sociável ao se misturar com outros trabalhos da Mostra, ao ser promotor de encontros do tipo: "vamos brincar?", ao ser também promotor da perca de tempo, atiçador do desejo de pegar e jogar, extensão corporal nos chutes fortes, objeto usado em performances, cenas de teatro, composições para desenho de modelo vivo, trabalhos em fotografia, entre outros.


*  *  *

Fotografia por Rodrigo Borges, durante a montagem do trabalho:


* * *


Fotografia por Adolfo Cifuentes, durante o encerramento da exposição 
"Rolf Gelewski - A vida e a dança como oração":



 


*  *  *


Fotografia por Sara Não Tem Nome, durante o evento de abertura da Mostra:








*  *  *


Fotografia por Thyana Hacla, durante o dia de abertura da Mostra:



 

 


 

 

 

 


 

*  *  *


Fotografia por Fausto Caiafa, durante o evento de abertura da Mostra:



*  *  *


Fotografia por Patrícia de Paula, durante a montagem do trabalho:


*  *  * 


Visitação: 23 de novembro a 13 de dezembro de 2013 - Escola de Belas Artes, 
Campus Pampulha, UFMG.

Site da Mostra! -->  http://mostraanual.wordpress.com/

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ele furou ela com uma tesoura.

Num ARRANCO a porta abre, vidro quebrado, cabelo puxado, SANGUE, BARRIGA FURADA, ela está sem blusa, mulher, uns vinte anos, cacos de vidro, ele bate ela na parede, arrasta pelo chão,  gritos. Tiram ele da sala da casa, ela corre para o meu quarto pega meu celular com a mão sangrando, liga pra polícia, diz que ela queria receber noventa reais de crack e ele a furou, ela pede uma blusa pra mim, ela liga pra mãe, ela chora tão carente mããããe mãnhêêê, por fim me passa o telefone pra legitimar seu pedido de socorro, ela (meu deus, quem é ela?) fala que vai matar ele, fala que seu pessoal vai descer, procura uma FACA na gaveta de talheres, não acha, ela senta no chão da sala, ela grita um monte de coisas: que é noiada, que respeita o espaço de todos, que não é louca, que é louca mesmo desde pequena, que não tem a chave daqui, que ele rouba que ele é noiado que ele não presta. 


Polícia militar, a primeira viatura, eles são alheios e irônicos, não sinto que irão fazer algo por nós, a segunda viatura, o tenente de jeito muito sério leva os dois embora. Entro num modo automático: ir na imobiliária, limpar o sangue, pedir para consertar a fechadura da porta, esquecer as cenas vistas. Sinto que estamos desprotegidos, sinto que é porque não temos dinheiro.

Cabeça resignificando acelerada: a nudez que também é ausência de si mesmo, o não mexer com droga que ouço amiúde, a palavra "pobre" que ressoa na minha cabeça crua e dolorida, a paz que vejo no semblante de trabalhador do moço que trouxe o gás mais tarde, o vagabundo que não é iluminado, o medo por você por quem você ama por quem você conhece por quem você acaba de ver, a piedade temperada com raiva, o ficar alheio demais, o ficar preocupado demais, o morar em apartamentos e o morar em vilas, o confiar em recém conhecidos, o defender recém conhecidos, o ter carinho por recém conhecidos, poder pegar aids pelo sangue, a casa toda cheirar sangue, ser frágil o bastante pra perder o dia por isso,  desgostar de um lugar por isso, considerar esse acontecimento chocante, as pessoas que não consideram esse acontecimento chocante, isso ser o motivo para ter perdido aula na faculdade de belas artes, ficar desorientada até conseguir 

parar pra escrever


e depois não penso em mais nada.

 
* * *


Fotografia de parte da obra "Desvio para o vermelho", de Cildo Meireles