quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ele furou ela com uma tesoura.

Num ARRANCO a porta abre, vidro quebrado, cabelo puxado, SANGUE, BARRIGA FURADA, ela está sem blusa, mulher, uns vinte anos, cacos de vidro, ele bate ela na parede, arrasta pelo chão,  gritos. Tiram ele da sala da casa, ela corre para o meu quarto pega meu celular com a mão sangrando, liga pra polícia, diz que ela queria receber noventa reais de crack e ele a furou, ela pede uma blusa pra mim, ela liga pra mãe, ela chora tão carente mããããe mãnhêêê, por fim me passa o telefone pra legitimar seu pedido de socorro, ela (meu deus, quem é ela?) fala que vai matar ele, fala que seu pessoal vai descer, procura uma FACA na gaveta de talheres, não acha, ela senta no chão da sala, ela grita um monte de coisas: que é noiada, que respeita o espaço de todos, que não é louca, que é louca mesmo desde pequena, que não tem a chave daqui, que ele rouba que ele é noiado que ele não presta. 


Polícia militar, a primeira viatura, eles são alheios e irônicos, não sinto que irão fazer algo por nós, a segunda viatura, o tenente de jeito muito sério leva os dois embora. Entro num modo automático: ir na imobiliária, limpar o sangue, pedir para consertar a fechadura da porta, esquecer as cenas vistas. Sinto que estamos desprotegidos, sinto que é porque não temos dinheiro.

Cabeça resignificando acelerada: a nudez que também é ausência de si mesmo, o não mexer com droga que ouço amiúde, a palavra "pobre" que ressoa na minha cabeça crua e dolorida, a paz que vejo no semblante de trabalhador do moço que trouxe o gás mais tarde, o vagabundo que não é iluminado, o medo por você por quem você ama por quem você conhece por quem você acaba de ver, a piedade temperada com raiva, o ficar alheio demais, o ficar preocupado demais, o morar em apartamentos e o morar em vilas, o confiar em recém conhecidos, o defender recém conhecidos, o ter carinho por recém conhecidos, poder pegar aids pelo sangue, a casa toda cheirar sangue, ser frágil o bastante pra perder o dia por isso,  desgostar de um lugar por isso, considerar esse acontecimento chocante, as pessoas que não consideram esse acontecimento chocante, isso ser o motivo para ter perdido aula na faculdade de belas artes, ficar desorientada até conseguir 

parar pra escrever


e depois não penso em mais nada.

 
* * *


Fotografia de parte da obra "Desvio para o vermelho", de Cildo Meireles

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